10.4.10

Hedonista



Regresso a casa pela serra e,
aos poucos,
deixo-me envolver pelo inebriante perfume das estevas.


Subitamente,
sou arrancado ao silêncio
e à tepidez envolvente do seu abraço,
pelo canto melodioso e pungente das nascentes que,

aqui e ali,

ignorando a minha inoportuna presença e
julgando-se sós,
cantam com voz cristalina o segredo dos rios
e a desventura das correntes que,
crédulas,
se deixaram seduzir pelas suaves e lânguidas carícias da chuva e,

mais tarde,

receberam com prazer as suas lascivas e progressivamente vertiginosas investidas
e se deixaram fecundar.


Abandonadas,
correm agora,

prenhes e desvairadas

inundando o cimento das cidades,
apagando sombras e pegadas
e arrastando sonhos e o voo das andorinhas,
que inutilmente tentam manter-se à tona.

Recuso ouvir mais
e ligo o rádio
na esperança de afogar o pesadelo.
tina

30.1.10

Porra, mais um dia desperdiçado!

Foi no momento em que parou de teclar
que,
subitamente,
percebeu que o manto azul escuro da noite embrulhava toda a casa.

Estranhou,
uma vez que, não há muito tempo se havia levantado,
(hoje vou levantar-me cedo), pensara, (é melhor não adiar mais tudo aquilo que preciso de fazer),
e assim o fizera, apesar da temperatura não ser muito convidativa ao abandono aconchegante do edredon (de penas, para que conste, uma fantástica oferta de natal do seu filho e avó, dele a avó, há alguns anos atrás, condoídos com o seu sofrimento nocturno, povoado de sonos e sonhos intermitentes e de pesados cobertores, divertidíssimos a impedir-lhe os movimentos, mas com uma enorme preguiça de desempenhar as funções que lhes haviam sido destinadas, ou seja, impedir a fuga do calor corpóreo),mas isso já lá vai, o frio, é claro, pois o edredon ficou (longa vida para ele).
Os dedos no interruptor
e eis que a lâmpada se espreguiça e a sua luz vai ganhando força, à medida que vai despertando (aposto que ficou chateada, também devia querer dormir mais um bocadinho),
porque a luz diurna, que lá fora pressentia intensa (está sol, pensou),
só com alguma timidez conseguia fazer penetrar o seus finos cabelos pelos quadrados da persiana semicorrida.

(tem que ser, vá lá...)
e lá estavam os dois pés fora da cama, tacteando aflitos à procura do aconchego dos chinelos
(porque não os deixará sempre no mesmo sítio?), insurgem-se.
Segundos depois, é o edredon que reclama o encontrão sofrido (hei, não é preciso empurrar!), e os braços que se arrepiam com a frigidez do quarto (porque não ficará aqui sossegada?)
Tem que ser, responde-lhes,
desculpem, não queria...
...mas tem que ser.

Depois, o mesmo ritual de sempre:
O roupão vermelho e gasto,
mas ainda assim cumprindo cabalmente as funções que foram destinadas,
além do mais, é bom poder reencontrar todos as manhãs um velho conhecido,
(é verdade que estás velho, mas tão depressa não vou encontrar alguém que conheça o meu corpo tão bem como tu, por isso, anima-te, não irei separar-me de ti só por isso, continuaremos juntos...)
(Até que a morte nos separe?), interroga.
(Eh, pá, tanto não direi!), grita sussurradamente (espero durar muito mais tempo que um pedaço de tecido polar vermelho, não queiras comparar, afinal de contas, apesar de amigos, não és mais do que uma peça de roupa criada pelo homem, ao passo que eu, sou uma criação divina!)

Ri-se, há muito tempo que sabe da mentira
(Deus não existe! nem os outros! Talvez fosse um deus interessante de adorar, se os deuses existissem. Só porque é quente... e amarelo),
mas agora pára um pouco,
de pensar é claro,
porque se apercebe que não tem a certeza de saber qual a cor de , terá a cor do sol?
(além disso, a luz do sol não é amarela, mas sim branca, segundo a teoria aditiva e, todas as cores que existem à nossa volta mais não são que a reflexão de um determinado comprimento de onda existente nos seus raios, de acordo com as propriedades químicas dos objectos em que se projectam, enquanto as restantes são por ele absorvidas, talvez seja branco, ou, talvez não, já que, sendo divino, talvez possa escolher a cor do espectro que vai usar em cada dia e assim variar o guarda roupa, sim, porque os deuses também se cansam de vestir sempre a mesma cor e, além disso, têm que ser belos, caso contrário, quem os adoraria?)

Depois,
uma rápida passagem pela casa-de-banho,
inevitável!,
dois passos
(bem, talvez sejam cinco, ou seis...)
a cozinha,

três passos,
o frigorífico,
porta aberta,
braço esticado,
pacote de leite na mão,
porta fechada (é um crime ecológico desperdiçar energia).
Ui! e então a torneira da banheira que não pára de pingar, isso já não é crime, não?, insurge-se o frigorífico, contrafeito por se ver impedido de apanhar ar fresco.
(Tens razão, sou uma criminosa, mas não sei arranjá-la e nãaaaaaaaaaaaaaaaaaaa conheço nenhum canalizador!)

armário, ou terá sido escorredor?
copo,
trinta e três centílitros bem medidos (é para que saibam)
leite no copo
braço esticado
frasco do café
(porra, já não chega, agora vou ter que por a mistura com vinte por cento de café)...
Só!?, grita o leite alarmado, (...que trouxe por engano do supermercado.
É o que dá fazeres as compras à pressa e não leres os rótulos com atenção),

microondas,
dois minutos,
tling (já está),
colher,
duas voltas,
talvez sejam quatro
leite castanho, ou melhor, cor-de -café -com- leite,
(ora aí está, todas as outras cores do espectro foram absorvidas)

Um gole interminável, (que bom!)
dois goles,
e pronto,
agora já não estás em jejum, podes acender um cigarro
uma passa, duas passas, três passas,
espreitadela na janela da marquise para ver se não chove,
está sol,
(que chatice, vou ter que ir trabalhar)

regresso à cozinha,
ainda resta um pouco de leite
e de cigarro,

devias comer, avisa a consciência,
(pois é, eu sei, mas não me apetece, qualquer dia)

cigarro esmagado no cinzeiro,
últimas gotas de leite (talvez não seja assim tão grave não comer, afinal de contas o leite é um alimento completo, caso contrário como sobreviveriam e cresceriam os bebés?),
mais um cigarro,
(muitas as horas de abstinência nocturna)

três passos,
sala,
computador,
botão,
aguardar (está cada vez mais lento!),
ligado (finalmente!)

ambiente de trabalho,
dois cliques no atalho desejado,
documento aberto,
(porra, como é que vou conseguir fazer esta treta?)

teclas,
dedos,
mais documentos abertos,
teclas,
dedos,
copiar,
colar,
arranjar,
(o aspecto também conta!)

cor,
sombreado,
sublinhado,
negrito,

formatar grelha,

imagem,
formatar imagem,

cor,
luminosidade,
contraste,

mais uma coisa de que te esqueceste,

verificar tudo de novo,
(não está mal de todo)
mas ainda faltam umas coisinhas...
(eu sei, faço depois, agora não aguento mais!)

ficheiro
guardar documento
escolha da pasta
Guardaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaado!

(Já está, acabei!!!!!).

Procuras a lista das tarefas para fazer este fim-de-semana
(É fim-de-semana, quem diria!)
Riscas o item correspondente (que bom, menos uma coisa...)
Olhas para a janela
e é aí que,
subitamente,
percebes que o manto azul escuro da noite embrulha toda a casa.

Estranhas
uma vez que não há muito tempo te encontras levantada.
(porra, mais um dia desperdiçado!)

tina

25.10.09

A dor é castanho-avermelhado



Subitamente,
desperta da ausência da viagem
e observa, divertida, as gotas de chuva,
que teimosamente se obstinam em escorrer de forma ascendente sobre o vidro do pára-brisas, contrariando as leis da gravidade.

Mais acima,
deixa que o olhar e o coração se suspendam
na linha negra e fina, que o adejar dançante das asas de um pássaro vai imprimindo no azul acinzentado do plano horizontal usualmente designado por firmamento e sente que todo o seu corpo estremece de inveja.

Recusa a inveja, embora admita o anseio,
há já muito tempo que recusa todos os pensamentos que considera menos nobres e,
para se redimir,
deixa-se embalar pelo tangido dos violinos,
aumentando o volume do rádio,
para que o espaço se povoe de gritos lancinantes similares àqueles que teima em calar
e prende o olhar no castanho avermelhado das feridas dos sobreiros.

São nobres os sobreiros,
que apesar de feridos,
oferecem ao olhar de quem os fere
o castanho mais bonito do mundo.
tina

19.8.09

Sangramento


No calor espesso das noites as formas e os volumes dilatam-se, enquanto as superfícies se despersonalizam, unificadas pela homogeneização das texturas de que se recobrem e pela liquefação progressiva das cores, que agora mais não são que uma amálgama indistinta e monocromática, um monocromatismo acutilante, que de forma acintosa vai mordendo os sentidos até os fazer sangrar.

Alimentado pela fragilidade do sangramento, o calor nocturno incorpora-se, adensa-se e da sua incrementada opacidade ressurgem poderosos e crescentes tentáculos que impiedosamente penetram no abismo dos corpos, fazendo transudar as almas inquietas, que gota a gota libertam o orvalho das memórias há muito envoltas na maciez do esquecimento, e que agora se agitam e gritam numa corrente tresloucada, que as torna insones.

tina

16.8.09

Apelo



Por favor,
desoculta as pegadas e devolve-me o caminho.

tina

O salto



O chamamento dourado das estrelas rasga o silêncio da noite numa correnteza perfumada que o deixa inebriado.
Desnuda a alma e, de olhos fechados, caminha pela frágil ponte das palavras que falam da outra margem e contam os segredos das árvores, que acreditando no sonho, se libertaram das raízes e voam agora no coração das pombas e é ao escutá-las que, finalmente, decide saltar.

tina

15.8.09

A noite passada sonhei contigo...


... e, por isso, o meu acordar foi manso.

O interior das pálpebras teimosamente cerradas, a tela onde uma e outra vez fui deixando que a projecção se repetisse, revivendo cada uma das frames vividamente.

Agora, o cenário do nosso encontro dissolveu-se nas horas passadas e, por isso, a memória é já incapaz de descrevê-lo (talvez porque não importe).

Contudo,
na pele da minha mão permanece para sempre o estremecimento provocado pelo toque dos teus dedos
e, nos lábios, o sabor do beijo de despedida que, dolorosa e estupidamente (sei-o agora) consegui evitar.

Sinto ainda a deliciosa sensação do afogamento dos meus olhos nos teus (e, apesar de tudo, acho que também te afogaste um pouco) e revejo o minuto, em que, enebriada pelo momento, finalmente me enchi de coragem e te sussurrei ao ouvido "Sabes o que me aconteceu, não sabes?".

Para sempre também guardarei a mudez da tua resposta, com a qual elouquentemente me confirmaste que, se pudesses, se não fosse já tarde demais, também tu me amarias...

... e é com essa certeza que hoje adormecerei e talvez te reencontre.

tina

14.8.09

A andorinha


Na rua,
a andorinha voa em movimentos circulares,
concêntricos,
as asas presas pelo encanto nostálgico do assobio que se esgueira da tua janela, por entre a fina quadricula das persianas que semi correste.

No interior,
apenas as linhas horizontais que o sol timidamente vai desenhando no branco das paredes e os teus braços nus abraçados ao vazio.

Na penumbra do assobio,
não sabes do sol,
tão pouco adivinhas o palpitar da andorinha,
mas o adejar apaixonado das suas asas imprime alterações ritmadas na linearidade monótona das sombras que povoam os espaços, transmutando as paredes em gigantescas pautas, onde todas as notas são possíveis.

Subitamente,
sentes-te envolvido por toda a música do universo,
um manto voluptuoso e quente que te enche a alma e te acaricia o corpo.
A tua pele estremece, arrepiada e, no esquecimento do arrepio, liberta as lágrimas.

É tão forte a violência da torrente, há tanto tempo contida,que as paredes se desmoronam soltando o riso que, agradecido, beija a andorinha.

tina

12.8.09

Saudade



Corro descalça à beira rio
e deixo que os meus olhos mergulhem no azul da corrente.
Ou será verde?

Seja como for,
penso que um peixe vermelho ficaria bem aqui.
Logo que possa,
trarei um pincel
e pintá-lo-ei sobre as águas.

Estremeço de prazer antecipado.

Sim,
um peixe vermelho ficaria bem aqui.

Terá que ser uma pincelada vigorosa, forte, sem hesitações,
mas leve.

Leve?

Se for pesada, o peixe afundar-se-á e as águas permanecerão azuis,
ou serão verdes?

Continuo a correr olhando as águas e o peixe vermelho que acabarei por pintar
e que me acena, sorrindo
e novamente estremeço
por recordar-me de ti
e perceber
já não ser capaz de ver a cor do teu olhar.

Deixo-me embalar pela dança do peixe sobre as águas.
Quero ir para casa.

Com urgência,
pego nos pincéis e pinto o rio.

Mentira!
pego nos pincéis e pinto dois rios.
Um rio azul.
Um rio verde.

Agora só falta o peixe.

Salpico ambos os rios de vermelho e aguardo.
Gradativamente,
de mansinho,
as cores misturam-se,
em ambos os rios.
Estão frescas ainda.

Afasto-me.
Olho para as telas e, subitamente, percebo que um rio onde nada um peixe vermelho só pode ser verde...

Verde?

Sim, tem que ser verde, talvez com um pouco de azul.

Azul?

Sim, verde, com um pouco de azul e o ondular do peixe vermelho à mistura.
Mas só se as cores do peixe e as cores do rio ainda não tiverem secado.

E, tudo isso porquê?

Porque só assim consigo ver novamente o castanho dos seus olhos.
Era castanho, não era?
Ou seria verde?

tina

9.8.09

O palhaço


Diz-se que enlouqueceu por causa de um amor perdido, ao certo ninguém sabe.
Todas as noites, o palhaço vagueia pela praia.

Na mão a cana de pesca e nos olhos, permanentemente assestados sobre a horizontalidade escura das águas, a esperança.

Caminha, normalmente, com passadas lentas, como se temesse magoar a areia com o seu peso.

Outras vezes, porém, há quem o veja correr, para estacar subitamente e lançar a linha. Recolhe-a depois e, com gestos suaves, delicados, pega nas fosforescências azuladas que retira do anzol e, uma a uma, coloca-as no bolso do casaco para que se aqueçam.

Diz o palhaço que pesca sonhos, sonhos naufragados que, depois de reanimados, liberta nos quintais dos desesperados...

Diverte-os a sua loucura.

Diverte-os tanto que continuam a rir-se apesar de, nas noites seguintes, as crianças voltarem para casa com frascos cheios de pirilampos.

tina

6.8.09

Eclipse


Na manhã do seu oitavo aniversário sentia-se muito feliz, apesar de não ter conseguido dormir quase nada durante a noite.
Vestiu a roupa nova que encontrou arrumada sobre a cadeira e, seguindo o cheiro das panquecas que se escapava da cozinha, desceu rapidamente pelo corrimão.
Como habitualmente, os pais já tinham saído para o trabalho.
Em cima da mesa, junto ao prato com o pequeno-almoço, encontrou um embrulho. Rasgou o papel à pressa, descobrindo uma caixa de cartão, dentro da qual estava uma bola. Teve alguma dificuldade em retirá-la do seu invólucro e foi necessário prendê-la com força entre os joelhos enquanto comia para impedi-la de rodar.
Quando terminou, pegou nela com ambas as mãos e levou-a para o quintal a fim de a experimentar.
Uma vez lá fora, pousou-a no chão e, após algumas tentativas falhadas, deu-lhe um pontapé. Apesar de não ter sido um pontapé muito forte, a bola elevou-se no ar e continuou a subir, até que a perdeu de vista.
Ficou parado, à espera que caísse e foi então que, progressivamente, o dia se foi apagando, até o sol se tornar apenas um fino halo incandescente pintado no horizonte.
tina

Que fazer quando tudo arde?


A saudade do teu sorriso é um canto duro e áspero
através do qual viajo
pelos labirintos do tempo e do desejo
esta e todas as noites
numa intolerável obstinação
que me devora as entranhas
e me vai tornando
a cada dia mais insana.

tina

25.7.09

Abandono



"Apetecia-me ficar assim, embora um pouco triste, ou inquieto, arranhando a solidão, arranhando-a até ela sangrar."

Mão direita do Diabo, Dennis McShade


Partida


Com o passar dos dias,
a vida tornou-se um lugar estranho repleto de silêncios
aqui e ali interrompidos
pelas histórias de poetas atormentados
que, em sobressalto,
partilham monólogos esféricos e espessos
povoados de moinhos rugidores
denunciando ao vento a voragem dos dias,
enquanto projectam nas suas velas
imagens de ilhas melancólicas
envoltas na neblina das despedidas
e na bruma das ausências.

Com o passar dos dias,
a memória povoou-se de rostos
semi-apagados pela passagem do tempo,
almas nómadas
viajando num carrossel de saudades e segredos e que,
perpetuadas pelo olhar do fotógrafo,
soltam lancinantes gritos de desespero,
procurando reavivar existências passadas
com medo do esquecimento.

Com o passar dos dias,
a vida tornou-se um comboio parado
num espaço cénico desértico...

Cansada,
regressou a casa,
trancou portas e janelas
e, já tranquila,
fez as malas
e partiu.

tina

24.7.09

A dança das palavras


Acendemos as velas e embrulhámos os olhos em caxemira enquanto a música projectava na parede imagens de lugares longínquos habitados por pirilampos e transparências. Então as palavras perderam a timidez e, com a cadência da chuva, puseram-se a dançar.

tina

22.7.09

Narciso


Ultimamente, sempre que se olhava ao espelho, tinha a sensação que a imagem devolvida se ia tornando mais nítida e apurada, facto que fazia aumentar o prazer experimentado aquando da contemplação e que, consequentemente, fazia com que cada vez com mais frequência olhasse para si.
Talvez devido ao prazer incomensurável que lhe percorria o corpo sempre que se observava e que era agora gradativamente mais intenso, sentia-se mais leve, de tal forma que pela manhã, ao acordar, nenhuma marca da sua nocturna presença se assinalava nos lençóis.
Reparou mais tarde, quando passeava no jardim, que apesar de àquela hora o sol costumar divertir-se pintando sombras longilíneas no relvado, nesse dia se havia esquecido da sua.
Estranhando a inusitada ocorrência, aproximou-se do lago, mas ao debruçar-se nas suas águas, apenas encontrou o reflexo do salgueiro-chorão, ondulando em alegres brincadeiras com o cisne negro e os peixes doirados.
Debruçou-se um pouco mais, mas tudo continuou igual.
Aconteceu qualquer coisa com os meus olhos, cogitou.
Começava a sentir-se um pouco febril, pelo que resolveu ir para casa, talvez descansando um pouco, tudo voltasse ao normal.
Nas escadas, cruzou-se com a vizinha do rés-do-chão, que cumprimentou com o aceno de cabeça habitual, mas não obteve resposta.
Dir-se-ia que não me viu, pensou, enquanto metia a mão no bolso da calças para procurar a chave. Notou, ao esticar o braço para introduzi-la na fechadura, que não conseguia distingui-lo, parecendo-lhe que a chave, suspensa no ar, rodava sozinha.
Entrou em casa, sentindo a cabeça a latejar, devo estar doente, disse para si próprio, e dirigiu-se à casa-de-banho à procura de uma aspirina.
Assustou-se realmente quando, ao chegar junto do armário, este se recusou a devolver-lhe a usual imagem da janela da parede fronteira consigo ao meio.
Tomou o comprimido e decidiu ir deitar-se à espera que fizesse efeito e foi ao chegar ao quarto e ao reencontrar o seu sorriso matinal reflectido no espelho que tomou consciência que havia ficado preso.


tina

20.7.09

Tentação


Vira-a naquela manhã, com um grupo de amigas, na frutaria, junto à banca dos jornais. Apesar das outras que a acompanhavam, fora no seu ar fresco e saudável, na sua pele sedosa deixando adivinhar a macieza do toque e na perfeição das suas formas arredondadas e convidativas que os olhos se lhe haviam prendido. Como era bela! Teve a impressão que um ligeiro rubor lhe tingiu as faces ao sentir-se observada, o que fez ainda aumentar a sua beleza...
Passou o dia sem conseguir concentrar-se no trabalho que tinha em mãos, revendo a sua imagem segundo a segundo. Ansioso, perguntava-se se voltaria a vê-la e uma desconfortável e forte contracção comprimia-lhe as entranhas, ao pensar na possibilidade de isso não acontecer.
Finalmente, agradeceu ao relógio, encerrou o escritório e precipitou-se para a rua, com a urgência nos pés e o coração a descompasso, até quase lhe fugir pela boca quando, ao virar a esquina, a avistou de novo.
Olhou-a e pareceu-lhe que lhe acenava, enquanto sorria, tentadora.
E foi então que não resistiu...
aproximou-se, pegou na maçã e deu-lhe uma dentada.

tina

19.7.09

Balada para un loco



Mergulho


Num sonho agitado
com aroma a canela,
polvilhado aqui e ali de flores de laranjeira
e ténues traços de almíscar,
deixa que o seu braço se prolongue
até o perder de vista.

Sem pedir licença às nuvens,
a mão recolhe o arco-íris
e regressa ao barco
para abraçar a sereia,
que fascinada pelo brilho das cores,
solta a sua voz transparente
e canta as estradas desertas onde um dia se perdeu.

Enebriados pela magia da música,
os fantasmas adormecem
enquanto,
progressivamente,
as brumas do passado se vão dissolvendo
e desocultam a ilha.

Expectante,
o barco vinca o seu traço azul e verde sobre as águas
e deixa-se ancorar.

Com ela ao colo,
corre pela areia e,
com urgência,
estende a toalha aos quadrados
sob a sombra das palmeiras.

Cumprindo o ritual,
com delicadeza,
a sereia recolhe as suas lágrimas de alegria,
mergulha nelas um raio de sol e,
pacientemente aguarda
até que atinjam a temperatura ideal.

Depois,
um a um,
vai acrescentando os morangos que,
secretamente,
havia abrigado no coração e,
servindo-se de um búzio,
oferece-lhe o chá,
que ele aceita.

À medida que o bebe,
um enorme espasmo inunda o seu corpo,
enquanto as pernas se lhe vão enrolando em espiral
e o céu se tinge de cor-de-rosa.

Recolhem por fim a toalha e,
de mão dada,
homem e sereia arrastam-se até à praia
onde se sentam
ansiando pela chegada da onda.

Quando ela vem
para beijar a areia,
olham-se nos olhos e,
sem medo,
mergulham no oceano
para toda a eternidade.

tina

17.7.09

Quando a saudade aperta



Quando a saudade aperta,
acendo a lareira
e, envolvido pelo bailado das chamas,
regresso à montanha
e à nossa casa de paredes caiadas com janelas sobre a lagoa.

Quando a saudade aperta,
contemplo o bailado das chamas
e a beleza sossegada das noites estreladas
que diariamente visitavam
a nossa casa da montanha
com paredes caiadas
e janelas abertas ao canto das rãs
que afinado embalava o nosso sonho.

Quando a saudade aperta
regresso à lagoa
sob as janelas abertas da nossa casa da montanha
de paredes caiadas
e perfume a madressilvas
e escuto ao longe as gargalhadas de arrepio que davas
sempre que algum peixe te beijava os pés.

Quando a saudade aperta
viajo aos finais de tarde na montanha
e, de mão dada contigo,
passeio pela paleta de cores indiziveis do pomar
e de novo saboreio a polpa doce dos frutos maduros e a textura suave da tua língua
que à mistura
gostavas de pôr na minha boca.

Quando a saudade aperta
e regresso à montanha,
revejo as paredes caiadas da nossa casa
com pardais a saltitar nos peitoris das janelas abertas a todas as promessas
e o gato preto correndo atrás das lagartixas
e que depois, já cansado,
se enroscava
ronronando mansamente no calor do teu colo
enquanto o afagavas e sorrias para mim.

Quando a saudade aperta
apesar da dança irrequieta das chamas na lareira
e já não aguento a dor,
regresso às frias manhãs de inverno na montanha
e mais uma vez contemplo
a impossível expressão de prazer na tua cara,
quando,
na nossa casa de paredes caiadas e janelas por onde entrava a felicidade,
preguiçosamente te deixavas ficar
escutando o silêncio no meio dos lençóis.

E é então que me abraço a ti
e finalmente adormeço.
tina

15.7.09

O quadrado (um "sonho" partilhado)

Que lindo que era o quadrado!
Perfeito...
Cheio de rectidão...
Contido na quietude linear que o envolvia protegendo-o de sobressaltos.

Só uma coisa o preocupava...
a sua cor laranja. Demasiado chamativa!

Apesar disso, sentia-se feliz e
tranquilo,
contemplava a curvilínea paisagem
pensando como devia ser inquietante viver assim,
sem limites.

Mas, subitamente, o ar agita-se.

Ping!

E eis que uma gota azul lhe cai em cima,
afunda-se e ressalta
elevando-se no ar divertida
e novamente cai.

Ping!

E de novo se ergue no ar e,
enquanto sobe,
vai abrindo a sua cor em forma de campainha.

Horrorizado,
o quadrado sente-se expandir,
o seu corpo alonga-se,
perde espessura e
aflito
também ele se ergue no ar!

E agora a gota rola sobre as suas costas
e vai semeando um rasto de cor azul
e de cócegas.

Surpreso
o quadrado-folha escuta uma retumbante gargalhada e
confundido
apercebe-se que é sua.

As cócegas, não aguenta as cócegas!
E não consegue calar o riso...


Ri, ri
e a gota rola, rola,
enquanto desnorteantes linhas azuis
se vão espraiando sobre si.

A gota rola, rola
e ele ri, ri
e a velocidade do riso e a velocidade do voo tornam-se uma só,
vertiginosa e ondulante...
tão vertiginosa e ondulante
que a gota começa a escorregar.

E o quadrado-folha voa, voa
e a gota escorrega, escorrega
e agora já só uma ténue linha azul a prende a ele.

Pára! Não vês que estou a cair?
Pára, ouviste?
Ordeno-te que páres!
aaaaara...


...abruptamente
o quadrado-folha suspende o voo.

Afinal, pensou,
não é assim tão mau ter uma gota azul dançando nas minhas costas
e, além disso, fico menos sozinho.
E dobrando um canto, ajuda-a a subir.

Abraçam-se.


Olham-se nos olhos
e voltam a abraçar-se,
um abraço delicioso,
sem fim à vista.

Agora já não é mais um quadrado-folha,
mas uma borboleta de asas azuis-laranja
que alegremente volteia de flor em flor.

Cansada,
interrompe o baile
e pousa no nariz de uma ovelha
que, oculta atrás de uma árvore,
espreitava salivante
um tenro e ondulante campo de ervas verdes e margaridas,
que emergiam de um quadrado-folha amarelo.


Ups!

Ainda mal as suas patas tocavam o nariz da ovelha
e já uma enorme tromba se agitava no ar
tentando desajeitadamente agarrá-la.

Apercebe-se, então,
que a ovelha era afinal
um pachorrento e gordo elefante
secando ao sol a barrenta lama que o cobria.

Aturdida, esfrega os olhos, quer ver melhor...
Aiiiiiiiiiii!

Já não é mais uma elegante e leve borboleta
e sim um enervante e zumbidor mosquito
que o irritado elefante esmaga com a sua tromba.

Plof!
E um anjo eleva-se no ar.

Que lindo, pensa o elefante.

Curioso,
ao ver o anjo,
o quadrado-folha amarelo aproxima-se.

Que criatura maravilhosa, murmura.
Mas já se sente puxado,
enrolado e
horror!
sugado
e desaparece
dentro da enorme, escura, húmida e celestial boca.

Agora uma folha preta cobre toda a paisagem.

tina

Um beijo, Nuno

Blue


"Tudo o que vejo são amanhãs azuis"
Island Empire, David Lynch



Metamorfose

Ao acordar, naquela manhã, teve a agradável impressão de que uma inusitada leveza lhe habitava o corpo.

Ergueu-se e dirigiu-se à cozinha para beber um copo de água, mas os gestos saíram-lhe canhestros, como se a distância entre o corpo e mão se tivesse tornado outra e já não a reconhecesse.

Ao longo do dia, uma crescente e irritante comichão foi-se-lhe colando à pele, enquanto os poros se abriam para regurgitar uns estranhos e longos pêlos azulados.
Começava a sentir-se agastado...

Só percebeu aquilo que realmente tinha acontecido quando, mais tarde, abriu a janela para apanhar ar e subitamente voou.

tina

14.7.09

Por vezes...



Acontece por vezes em plúmbeas e gélidas tardes de inverno que,
inesperadamente,
por debaixo da fímbria da cortina se esgueira mansamente um raio de sol.

Tocadas pela calidez do seu beijo,
as paredes diluem-se
e o ar enche-se de trinados.

Pouco a pouco,
o coração desperta do seu torpor e,
embriagado pela música,
despe-se do frio e põe-se a cantar.

Acontece por vezes que depois da canção,
nessas plúmbeas e gélidas tardes de inverno em que as paredes se diluem e os trinados enchem o ar,
o coração abraça ternamente o raio de sol e o aninha junto a si,
para sempre.


tina

13.7.09

Os medos


Os medos são gigantescas mordaças
que obstinadamente nos emudecem a voz.

Os medos são monstros esfaimados
que devoram os sonhos
e tornam mais pesados os corpos.

Os medos são implacáveis algozes
que cerceiam o voo
e nos transformam em homens-árvore.

Os medos são não-lugares
que estupidamente inventamos.
tina



12.7.09

Viagem


Exausto,
estendeu o corpo sobre a liquidez tépida do oceano
e tapou-se com o luar.

Assim aconchegado,
deixou-se embalar
pelo vai e vem das ondas
e pelo grito das gaivotas que lhe poisaram no peito.

Aos poucos,
foi sentindo que as imagens que guardava na memória
se iam lentamente esbatendo
numa suave gradação de tons pastel,
aos mesmo tempo que as vozes se tornavam murmúrios
sussurrando de forma cada vez menos audível.

Finalmente,
escutava apenas o balido das ovelhas
que adivinhava
saltando alegremente sobre o cercado.

Uma
duas
três
qua...tro
cin...

nunca mais ninguém o viu.

tina

The summerhouse


Fechou os olhos para ganhar coragem
e mergulhou.

Já totalmente submersa,
suspensa a respiração,
foi lentamente evoluindo por um intrincado labirinto de ruas oblíquas.

Tacteando,
virou à direita,
depois à esquerda,
novamente à direita
e penetrou num inesperado veludo negro
que logo lhe envolveu o corpo.

Aturdida,
abriu os olhos
e lá estava a casa.

Aberta a porta...
a longa escadaria,
o cheiro a livros antigos e a vidas passadas,
o piano emudecido de olhar tristonho,
o queixume dos móveis cansados da tão longa
(e agora) solitária existência,
o retrato austero da avó pendurado na parede do quarto
vigilante,
reprovador,
as roupas urgentemente espalhadas pelo chão,
o espelho que difusamente reflectia os corpos transpirados sobre a cama
e os Divine Comedy perguntando baixinho
"Do you remember?
The summerhouse...
o sabor e o cheiro da sua pele
o toque
e os Divine Comedy
"My summerhouse
Our summerhouse..."
e ele a sussurrar por entre o abraço
"A vida devia ser isto!"

Abriu os olhos
e lá estavam eles,
aqueles dias de Agosto
em que nada mais existiu
e o sonho se encheu de rosas.

Subitamente percebeu que aquilo que a envolvia era novamente o veludo negro do seu olhar.

"Do you remember?"

tina

Post mortem nihill est






Ajoelhou-se
e deixou que subisse para as suas costas.

Já instalado
(comodamente, há que dizê-lo),
empunhou o chicote, enquanto,
com a outra mão,
lhe ia acenando com a recompensa post mortem
e a remissão dos pecados.

Acreditou (é claro) e,
apesar do peso,
ergueu-se
e seguiu em frente.

Andou
andou
andou,
até que,
na lonjura do caminho,
avistou a montanha.

Sobe-a, disse-lhe,
empunhando o chicote, enquanto,
com a outra mão,
lhe acenava com a promessa do paraíso.

Obedientemente
(apesar do peso),
aproximou-se
e já se dispunha a iniciar a subida
quando reparou na águia
e finalmente entendeu.

Sem querer já saber da vida eterna
e ignorando a ameaça do chicote,
atirou-o ao chão,
elevou-se no ar
e foi ter com ela.

tina

10.7.09

Escuridão


Uma MULHER ABSOLVE a mãe de PEDRA
que regressa à
liderança do CASTELO.

Na necrópole
Não está ninguém.

na jaula
Os cães de GRANITO Verde
revelam
O Mistério da alma.

até a Chuva fora esquecida
na resistência contra O ser.

agora
Os Humanos NÃO vão reencontrar
os caminhos
da Ilha da Música.
são Burlas
em Negra manhã.

tina

A solidão


À beira da ruptura
Paulo pintou as paredes de branco
e escancarou a janela do sorriso.

Um monumental equívoco...

O segredo não é correr atrás das borboletas.

tina

A casa


Três cantoras cantam
ópera vienense,
de braço dado, trágicas.

Um ambiente triste,
sem pompa!

Várias crianças, sem espírito,
insistem sobre a aventura dos submarinos de cristal
na maré negra do banho.

De surpresa,
a casa em que moram
invoca o grande relógio encantado.
Exige os segredos do fundo
e ameaça ler os seus livros proibidos.

tina

No parque


No parque,
o anjo voador
conquista sucesso no trapézio.
Santos em contramão saem dos livros.

Na rua,
três mulheres tocam a música do silêncio.

Que fazer?
(o rapaz loiro duvida)

Não esperava ser preciso andar
contra o tempo e o nevoeiro.
Derrotado,
esmaga depressa a lágrima
e toca às portas.

Falha.

Ninguém a confunde,
a morte é envolvente.

tina

O pescador e as estrelas


O pescador de estrelas
acendeu a noite.

Depois,
lentamente,
cerrou os olhos e começou a dançar.

Ao vê-lo,
elas estremeceram.

Rendidas,
esticaram os seus longos cabelos doirados para acariciá-lo
e
uma
a
uma
ficaram presas na rede.

tina

9.7.09

Gritos


A quietude inquieta
agita-se

Grita a noite que rodopia
num negrume crescente

Grita o silêncio repleto de palavras
que não ousa falar

Grita a vida esfiapada
e os dias que correm sem destino
no vazio ecoante da solidão.

tina

Festa


A mulher
esqueceu-se do príncipe.

Admite partir.

Amanhã vai para a Lua.
.
Para ficar.

Pela primeira vez
há festa no palácio de papel...

Estão a ouvir a música?

tina

Mudança


O tempo está em festa
e
pela primeira vez
não o vê.

Vai ter que inventar
outro tempo
um novo corpo
uma casa em papel sobre o rio
um novo paradigma para ser
e
procurar as cores dos pássaros
que querem há muito mudar de vida.

tina

Amor


Em Veneza
depois das rosas
a mulher diz:

Há quanto tempo estou aqui
à espera do comboio
na minha paisagem com desenhos de pastel!

Hoje tudo pesa menos.

Menos
é também o que eu sou agora
e odeio amar-te tanto!

tina

Onde?


Onde ficou o sonho?

Onde se perdeu o caminho?

Para onde se dirigem as palavras
se apenas o eco lhes responde?

Onde ficou o sorriso
escurecido pela sombra dos dias?

Para onde se ausentaram as papoilas
e o murmúrio da água cristalina
que iluminava as manhãs cheias de promessas?

tina

Tristeza


O canto dos pássaros embate nas vidraças
e os olhos abrem-se lentamente.

Esfregam-se.
Espreguiçam-se.

Erguem-se
e esbarram na escuridão.

Tristemente,
encolhem-se
e voltam a adormecer.

tina

Quem foi que apagou o sol?


O silêncio agiganta-se e tudo é engolido.
Fica apenas a sombra dos sonhos
e o eco dos desejos calados
e das promessas de arco-íris.

Quem foi que apagou o sol?
E o grito das aves que voavam
mergulhando no azul-esverdeado do mar?

Para onde foi a brisa
que agitava os cabelos
elevando o perfume das rosas
em cujos espinhos passeava despreocupado um caracol
ansiando pelo beijo vermelho das suas pétalas?

tina

Insónia


O fumo azul dos cigarros enche-se de borboletas,
que esvoaçam à procura do sol
e o pensamento persiste em não adormecer.

tina